sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O amor segundo Neruda

    Seu nome era sinônimo deste. Não tinha vergonha e nem medo em se deixar levar pelo sentimento que acorrentava sua alma. Apaixonado por essência, preenchia páginas e mais páginas com essa força que lhe consumia e que domava o decorrer de sua escrita com delicadeza.
O amor, segundo teus poemas, tinha gosto, cheiro e textura. Poderia ser áspero, poderia ser fogo, poderia ser mar e espuma. Poderia ser pêssego, madeira, música e solidão. Levava consigo a fome, o desejo, a libido, a fúria e a espera. Levava consigo a saudade e a vermelhidão.
Não era sempre lágrima e nem era sorriso. Era, em todos os momentos, verdade. Verdade que não garantia um beijo exclusivo ou a eternidade. Garantia o presente, a aventura do agora, a fuga pelos bosques perdidos e o toque da aurora. Garantia a poesia.
Seu amor se estendia à sua natureza e à sua nação. Carregava no peito as pedras negras de Coquimbo, as estrelas de Temuco e a neve de Lonquimay. Avistava da janela o porto de Valparaíso e recebia, em seu rosto, o carinho do vento, vindo do oceano.
Escrevia, sentado na Nuvem, sobre Matilde ou Rosário. Biografava suas paixões enquanto o quadro de uma rainha olhava, diretamente, para o de um rei. Seu amor também era pela sua complexa personalidade refletida na organização dos objetos de sua casa.
Amava o único, amava o raro, amava o profundo e o significado. Amava até mesmo a forma com que o amor se acabava e, tempos depois, nascia novamente. Desta forma, escreveu muito mais que vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Escreveu a presença deste sentimento e a necessidade que tinha de tê-lo dentro de si, “porque está escrito onde não se lê, que o amor extinto não é a morte senão uma forma amarga de nascer”.


Clara Ayroza

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