terça-feira, 30 de outubro de 2012

    É difícil o fim. O escrever de tantas linhas, para a decepção do último parágrafo da história. O apostar de tantas fichas, para o jogo sem sorte na mesa. O abrir de tantos sentimentos, para a porta fechada do coração. Ele acontece, é inevitável e nem a força de mil e um elefantes pode impedi-lo. Tira um pedaço de nós, nos deixa um punhado de pó e cria feridas que há muito não apareciam no pulsar do peito. É uma pane, é um defeito, é um parafuso fora do lugar que faz tudo em volta desmontar. Tem gosto de fel, resquício de mel e uma saudade sem fim. Mas vem pro bem, vem pro elevar. Pro crescer, pro novo olhar. Pro amadurecer, pro então amar. É a possibilidade, é a substituição, é a lembrança do velho no nosso coração... É o acordar. E que acordemos todas as vezes em que a dor nos enfeitiçar. E que superemos todas as vezes em que a lágrima nos derrubar. Que sejamos fortes, que sejamos firmes, que sejamos pássaro. E que saibamos a hora certa de voar.



Clara Ayroza

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Bagunçando a prateleira e o coração

     Eu já tinha me convencido que não abriria mais a porta para esses sentimentos que bagunçam meu raciocínio, se acumulam em minhas insônias, percorrem meus sonhos e formam curvas doces sobre meus lábios. Paixão é perigosa, menino. Passei a chave e fechei o cadeado porque acreditava que se ela aparecesse e sumisse eu teria que arrumar o peito sozinho, pôr os meus livros na estante juntamente com os pedacinhos de meu coração. Mas em um momento de descuido eu abri a porta, fui sentir a brisa e antes que minha mão alcançasse a maçaneta de volta, me encontrei no verde dos olhos que me serviam como luz. E foi aí que minha pele se encontrou iluminada pelo sorriso e minhas suspirações se lançaram sobre o rosto dele. Você está apaixonado, menino. Então logo logo o apreço virou o abraço, a vontade se transformou em beijo, as declarações ser tornaram promessas. O sentimento afirmou fidelidade. Mas por agora devo dizer que estou feliz, caso não tivesse aberto a porta empoeirada não descobriria o contentamento que hoje conheço e compartilho com ele. Torço para que seja assim enquanto a chama aquece nossas expectativas, o afeto estreita os laços, torço também para me perder cada vez mais nos campos verdes do olhar daquele a qual pertenço... Porque da escuridão e da solitude eu já compreendo bem e estou convicto de que ele é o sol em minha noite. 

Paulo Justiniano.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O amor segundo Neruda

    Seu nome era sinônimo deste. Não tinha vergonha e nem medo em se deixar levar pelo sentimento que acorrentava sua alma. Apaixonado por essência, preenchia páginas e mais páginas com essa força que lhe consumia e que domava o decorrer de sua escrita com delicadeza.
O amor, segundo teus poemas, tinha gosto, cheiro e textura. Poderia ser áspero, poderia ser fogo, poderia ser mar e espuma. Poderia ser pêssego, madeira, música e solidão. Levava consigo a fome, o desejo, a libido, a fúria e a espera. Levava consigo a saudade e a vermelhidão.
Não era sempre lágrima e nem era sorriso. Era, em todos os momentos, verdade. Verdade que não garantia um beijo exclusivo ou a eternidade. Garantia o presente, a aventura do agora, a fuga pelos bosques perdidos e o toque da aurora. Garantia a poesia.
Seu amor se estendia à sua natureza e à sua nação. Carregava no peito as pedras negras de Coquimbo, as estrelas de Temuco e a neve de Lonquimay. Avistava da janela o porto de Valparaíso e recebia, em seu rosto, o carinho do vento, vindo do oceano.
Escrevia, sentado na Nuvem, sobre Matilde ou Rosário. Biografava suas paixões enquanto o quadro de uma rainha olhava, diretamente, para o de um rei. Seu amor também era pela sua complexa personalidade refletida na organização dos objetos de sua casa.
Amava o único, amava o raro, amava o profundo e o significado. Amava até mesmo a forma com que o amor se acabava e, tempos depois, nascia novamente. Desta forma, escreveu muito mais que vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Escreveu a presença deste sentimento e a necessidade que tinha de tê-lo dentro de si, “porque está escrito onde não se lê, que o amor extinto não é a morte senão uma forma amarga de nascer”.


Clara Ayroza

domingo, 14 de outubro de 2012

Mais um selvagem em busca de mais momentos

   "Momento"... Feche os olhos, mentalize essa palavra e pense em todas as vezes em que seu coração correu por todos os cantos de seu corpo. Agora lembre de quando você sentiu vontade de vomitar a ressaca, enxugar a cachoeira de lágrimas, fazer durar por uma vida aquele abraço e sinta o novamente o gosto do melhor beijo que você já deu. É disso que gosto, da nossa imprevisibilidade que permite que as emoções e sentimentos dancem sobre os momentos. É isso que diferencia uma existência boba de uma vida bem vivida, momentos cujo fôlego tropeçou e as mãos suaram, por isso eu não hesito e enfrento o medo. Dou a cara a tapa, ergo a sobrancelha e mordo os lábios quando preciso. Não quero me entregar à uma vida mesquinha, quero encher meu peito de vivacidade e contentamento, pessoas e versos, vontade, adrenalina e experiências. Não nasci para sobreviver, nasci para ser mais um selvagem no mundo que procura a liberdade. É basicamente assim que penso.

Paulo Justiniano.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Justificando a ausência

   Essas duas últimas semanas foram um tanto conturbadas. Foram semanas de adaptação, de crescimento, de responsabilidades e de muitas noites sem dormir. Tive que aprender, na marra, o que é cumprir os compromissos dentro de seus prazos. A verdade é que nunca fui exemplo quando o assunto é horário, em qualquer ocasião. Chegar atrasada é minha marca registrada e entregar os trabalhos do colégio quase um mês depois da data estipulada se tornou rotina. Má rotina, diga-se de passagem. 
   Foi por conta disso que, depois de milhões de sermões de meus pais e mais um tanto de professores e coordenadores, percebi o buraco sem fim que estava caindo... e sem corda para sair. Decidi estudar. Decidi fazer todos os trabalhos, listas e exercícios atrasados. Em resumo, decidi passar dias e noites em claro, atrás de um final de ano mais tranquilo, em que eu possa respirar com calma e aproveitar em paz.
   A jornada ainda não acabou. Aliás, nunca acaba. A organização há de ser algo constante e necessário no nosso dia a dia, e cabe a nós mesmos inseri-la nesse meio. Não digo que, para viver bem, precisamos ser absurdamente metódicos e organizados. Longe de mim pensar dessa forma. Mas digo, por experiência própria, que deixar as coisas "pra amanhã" é o mesmo que empurrar a poeira pra debaixo do tapete. Hora ou outra, a limpeza terá de ser feita, e com muito mais dificuldade. Como minha avó sempre me disse, "pra que deixar pra amanhã o que podemos fazer hoje", não é mesmo?
   Enfim, peço perdão pela ausência, pelo texto feito às pressas e pelo assunto um tanto chato. Assunto chato mas que, inevitavelmente, tá me ensinando uma série de coisas que eu, aos 17 anos, me recusava a aprender. Hoje, vejo que são coisas necessárias e extremamente importantes para nosso convívio, tanto com o mundo, quanto com nós mesmos.

Clara Ayroza