Dizem que dá sempre pra se tirar algo bom até nas coisas mais simples e inesperadas da vida, que se você se permitir é capaz de viajar para diferentes lugares percorrendo o mesmo caminho, ou só fechando os olhos - navegar no óbvio encontrando o surreal. Foi isso o que aconteceu enquanto estudava para minha prova de Literatura, vi alguns quadros cubistas e no meio daquelas cores e formas, que ao mesmo tempo pareciam bagunçadas e perfeitamente encaixadas, sonhei. Picasso em nenhum momento pensou em pintar um quadro meu, mas naquele breve momento, diante de meus livros e devaneios, pensei que eu poderia ser uma pintura cubista. Onde em mim não consigo achar apenas uma cor e dificilmente explicação, o vermelho de meu gargalhar com o branco de minha tranquilidade se misturando da forma mais sublime, meu olho que se confunde com um abraço, o nariz com o gosto, a mão com a velocidade em que caminho. Na verdade, isso não é exclusividade minha, mas penso que todos são assim. É impossível olhar pra uma pessoa e imaginar apenas uma face dela, uma forma, uma cor, um estilo ou um único resultado. Somos um mundo! Há quem seja cubo, outros quadrados, há quem prefira triângulos e até mesmo desperte retângulos, ganhamos uma forma sem nome com o passar do tempo, por isso somos essa expressão numérica que até mesmo Deus tenta desvendar. Mas no fundo eu gosto é disso, da bagunça que em um toque é requintada, que com um olhar cuidadoso é compreendida e se torna especial. Se você parar pra observar uma pintura cubista, vai sempre achar algo novo, assim como o velhinho quieto da esquina que você descobriu semana passada que tem uma tatuagem nas costas, que a amiga super religiosa de sua mãe é lésbica reprimida e que o mais nerd da sala toma uma garrafa de vodka sozinho. Há sempre mais em nossos parênteses. Toda essa viagem que eu fiz, não durou mais que dois minutos, acordei e esperei a coragem para voltar a estudar. Nessa simplicidade do cotidiano, descobri que é possível sim encontrar um verso ou arte que me diga um pouco de mim, de você, do universo.
Paulo Justiniano
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